ela regenerou-se
ela transportou pedras
ela ficou quieta, permaneceu em silêncio
ouvindo tudo com muita atenção
mas estava mesmo era pensando
se havia ligado mesmo o fogão
a cabeça fincada lá dentro
enquanto as crianças dormiam um soninho
concentre-se que vai começar daqui a pouco quando estiver olhando pra cima e quando o que estiver em cima estiver olhando pra baixo - um livro? Se quiser, pode fechar os olhos e fingir que tudo bem, pode olhar a partir desse momento será somente um poro obstruído a ser espremido com todo o cuidado para que o serviço fique realmente bem feito.
Poderia esclarecer,
por favor?!
Não.
Era um lobisomem recém-nascido. Um pacote dentro de uma caixa. Um minúsculo caco de vidro com a ponta virada pra cima esperando uma criança feliz, um pé descalço. Esperando o grande, o incomensurável, o inadiável: a c a s o. Vamos, antes de mais nada, apresentar todos os que participam do espetáculo. Um grande espetáculo? Nem tanto. Um espetáculo pequeno. Consistência física bastante frágil e, à revelia desta marca sinistra, um arrepio de vontade. Uma vontade que partia dos olhos mesmo que todo resto do corpo estivesse inerte. Os olhos ficavam vigiando alguma coisa se mexer e, isto flagrado, transferia-se em corpo para transmutar-se naquel´outro corpo fosse o que fosse: um rato, um gato, um cachorro, outra criança, o pai, a mãe, a água borbulhando dentro da panela. Pequenas bolhas, médias, grandes que estouravam. A respiração, um fiozinho que media o tempo. Os olhos alçavam um pássaro em pleno voo, como se pesca um peixe num céu líquido. O cheiro quente do pássaro, coração palpitando brutalmente. Aonde pensou que ia com tanta pressa, hein, passari-in-inho? Em menos esperar, pequenas mãos abriam os dedos - não antes de agarrar com força a redondez do corpo da ave. Assim, o aprendizado do amor. Louco pássaro laçado pelo olhar e guardado entre os dedos cardíacos entre os lábios mastigando suavemente até o sangue escorrer inocente. Me balança? Todos na casa dormem e a mãe vela o corpo do pequeno lobisomem. Ainda sem pelos. Ainda frágil a ponto de se quebrar entre os longos braços da mãe. A cortina dos olhinhos bebês insistindo em não fechar, caindo na dança do embalo. Felicidade é um silêncio morno quando, lá dentro, sem ninguém saber, a rã salta na água do poço. Verde e escuro. A linha da noite avançando até tingir de cores a barra do céu. Crescer, dourar o pão dentro do forno. Sentir o hálito do que está por vir. O pequeno lobisomem volvia-se, dasein frágil, frágil, frágil com olhos de engolir mundos.
Pés postos em pé. Quer? Não quer? Quer-não-quer? Quer-não-quer? Se fosse pra ver, seriam vistas as marquinhas no chão evitando, no próximo passo, a queda. O primeiro sorriso de mulher veio numa dentadura frouxa quase derreando-se da boca. O lobisomem respondeu bracinhos. Respondeu costelas. Respondeu mãos esticadas ao abraço. De dentro da toca, um canto de gia marcando uma prece na manhã, frescas bandas de laranja. Coisas úmidas. Coisas futuras. E o acolhimento inteiro inserido dentro dos braços, perto dos seios que já haviam amamentado levas de seres famintos, mulheres que se mantiveram virgens até os últimos dias da humanidade, sonhos soltos ao anoitecer, lavando as cobertas de suor vertido das coxas; loucos que se encerravam em vãos escuros das casas de reabilitação mental. O lobisomem gravou o cheiro de por-trás das orelhas; o da nuca, o do entresseios, gravou o frescor do que vinha de no meio das pernas. Marcou a pista que ia das narinas escuras até o sombrio coração. Tudo isso esfumaçado pela neblina do cigarro que o homem fumava filosófico.